• Bruno Ramos

Com IGP-M nas alturas, FGV quer criar novo índice para reajuste do aluguel

A alta da inflação deve se manter até o país conseguir sair da pandemia, diz André Braz, coordenador dos Índices de Preços da FGV

Na última terça-feira (30), a Fundação Getúlio Vargas (FGV) informou que o Índice Geral de Preços-Mercado (IGP-M) subiu 2,94% em março. Com este resultado, o índice acumula alta de 8,26% no ano e de 31,10% em 12 meses.

A título de comparação, em março de 2020, o índice havia subido 1,24% e acumulava alta de 6,81% em 12 meses. Isso mostra, como tem sido amplamente repercutido, o quão forte está sendo a pressão sobre os preços no último ano.

“Todos os índices componentes do IGP-M registraram aceleração", diz André Braz, coordenador dos Índices de Preços da FGV. "Trata-se do maior valor para março desde o início do Plano Real."

Trata-se de um resultado alarmante para todos, mas que afeta diretamente alguns grupos específicos - como as pessoas que pagam aluguel, já que o índice é utilizado para reajustar contratos do gênero.

Pensando nisso, a reportagem do CNN Brasil Business conversou com Braz sobre o momento atual dos preços no país, distorções em setores específicos e prognósticos para o restante de 2021. Confira abaixo:

Como avaliam o resultado do IGP-M de março? O resultado do IGP-M em março veio muito influenciado pelo reajuste da gasolina e do diesel, tanto no Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), que corresponde a 60% da cesta, como no Índice de Preços ao Consumidor (IPC), que reúne outros 30%. Além disso, o IPA também mostra uma aceleração forte nas commodities, agrícolas e industriais, de mais de 70% em um ano. As matérias-primas nem tanto, mas bens intermediários e finais, sim.

O indicador já acumula alta de mais de 30% em 12 meses. Acredita em uma desaceleração ainda este ano?

Eu acredito que o indicador tem potencial para continuar avançando como está pelo menos até o final do primeiro semestre. Uma possível desaceleração só será possível na segunda parte do ano.

A Covid-19 está determinando a aceleração e a desaceleração da demanda por petróleo e, com várias economias reabrindo, vamos ter aumento da demanda e, consequentemente, de preços.

O viés é de alta porque o mundo inteiro está pelo menos um passo à nossa frente e vai retomar as atividades mais cedo. E esse desafio não fica só nos combustíveis, mas também na indústria química, nos defensivos agrícolas.

O IPCA, apesar de não ter saltado tanto em números absolutos, também está pressionado. Acredita que vai ficar no teto da meta?

É bem provável que a gente feche 2021 próximo do teto inflacionário. Minhas previsões mostram que o IPCA deve continuar avançando até junho, chegando até cerca de 7% em 12 meses, mas tende a desacelerar depois disso e acabar o ano por volta de 5,1%. Mas isso vai depender muito do aumento da dívida pública e da prorrogação dos efeitos da Covid-19. O governo deu informações truncadas para a população no último ano, o que atrapalhou muito na gestão da pandemia.

Temos grandes cidades do Sudeste antecipando feriados, quando já devíamos estar pensando em uma retomada forte. Enquanto a gente viver este dilema, vamos continuar alimentando a inflação.

Pior que isso, a iniciativa privada não vai investir com tantas incertezas e o governo não tem dinheiro para estimular este movimento. Então, enquanto vemos as previsões de inflação aumentarem, também vemos as previsões para o PIB diminuírem. O consumo das famílias voltou aos níveis de 2015 e 2016.


A volta do auxílio emergencial pode ajudar nisso?

Os mais pobres sentiram uma inflação muito maior, de cerca de 20%. Só os mais ricos é que experienciaram este aumento de 4,5%. Não considero que a volta do auxílio vai resolver muita coisa. Muitas pessoas de classe mais alta conseguiram manter empregos e salários durante a pandemia, mas e os prestadores de serviço? Que casa a diarista vai limpar? Que carro o guardador vai manobrar? O voucher não vai substituir esse buraco. Voltando ao IGP-M, um dos setores mais afetados pelo movimento do índice foi o imobiliário, com alguns contratos sendo até modificados para o IPCA.


Como avalia a questão?

O IGP-M não foi criado com o propósito de servir de referência para contratos imobiliários, mas foi adotado pelo setor. De todo modo, a gente percebe que a variação no valor dos aluguéis está em 3%, cerca de 10% do IGP-M. Ou seja, o índice é citado, mas é pouco utilizado de fato.

Nossa ideia é, portanto, criar um indicador específico para o mercado imobiliário. Consideramos que o IPCA também não é ideal para este propósito, já que não avalia a remuneração.

Agora, estamos buscando contato com imobiliárias de todo o Brasil para estabelecer parcerias e conseguir ter acesso a um fluxo constante de dados sobre preços de aluguel em contrato.

A ideia é que tenhamos um índice nacional e dados específicos sobre as maiores cidades do país, mas ainda não temos data para apresentar o projeto.

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