• Caroline Sacardo

Cinco brasileiros fogem da Ucrânia durante a guerra

Nesta segunda-feira, 28, eles atravessaram a fronteira para a Eslováquia em segurança após a execução de um plano de fuga elaborado por uma estrategista de paz que vive em Florianópolis.

Cerys Tramontini, diretora do Instituto Paz & Mente no Brasil, foi contratada para analisar, mapear e garantir a efetivação da operação de retirada dos jovens do país em conflito.


Apesar da contratação ter partido da família de Victor, que joga futebol pelo FC Vovchansk e é de Piracicaba, no interior de São Paulo, Tramontini criou um roteiro para evacuar mais quatro brasileiros. Os cinco estavam no mesmo apartamento na cidade de Kharkiv.


Tentar sair de um país em conflito de grande proporção é uma missão desafiadora em que os detalhes são chave. Para a elaboração e manutenção do plano de fuga, fatores precisaram ser analisados cautelosamente como o andamento da guerra, questões de segurança e logística.


“Todo processo de planejamento da operação de paz deles foi muito complexo, porque realmente essa guerra envolve muitos interesses, são muitas nuances”, garante Tramontini.


Em entrevista ao ND+, a profissional mestre em Paz, Segurança Internacional e Transformação de Conflitos explicou o passo a passo da estratégia de retirada dos brasileiros da Ucrânia.


Na situação de emergência da guerra, o planejamento muda o tempo todo e não há uma ordem de processos ao longo da montagem da estratégia. Entretanto, não há espaço para perda tempo e o primeiro passo é urgente e claro: evacuar.



Tempo exato para saída de Kharkiv


Na madrugada de sexta-feira, 25, a Rússia invadiu a Ucrânia pelo norte, sul e leste do país. Victor Adame e quatro brasileiros, também jogadores de futebol, estavam em Kharkiv, na região leste e próxima da fronteira russa onde aconteciam bombardeios.


“A cidade já estava tomada, tinha muita milícia na rua e era muito perigoso. Uma hora depois que os meninos deixaram Kharkiv, fecharam o cerco. Ninguém mais iria sair ou entrar”, conta a especialista.


De trem, o grupo de brasileiros deixou o município no mesmo dia em que Tramontini iniciou a operação de paz e o planejamento para eles deixarem a Ucrânia. A caminho da capital Kiev, os países cotados como destino eram Eslováquia, Polônia e Hungria.


Plano executado com sucesso


Após evacuação imediata de Kharkiv para Kiev, de trem eles seguiram para Lviv e depois viajaram para Uzhhorod, divisa com a Eslováquia. Lá, os brasileiros cruzaram a fronteira a pé por volta das 11h, horário de Brasília, nesta segunda-feira, 28.


Os brasileiros descansavam durante os trajetos de trem. Em cada cidade que passaram, os jovens receberam apoio de membros da Embaixada do Brasil como parte do planejamento, garantindo alimentação e cobertores para eles se protegerem do frio.


“A cada etapa, eu me preocupei com comida, segurança e um conforto mínimo. Por exemplo, nesse momento está muito frio. Então, nesse sentido, conforto mínimo é eles estarem aquecidos.”


As rotas e estratégias mudaram muito de acordo com o contexto. Para a diretora do Instituto Paz & Mente, o plano executado pelos cinco jogadores foi o mais seguro possível.

Eu tinha informantes em vários pontos para ter embasamento e poder montar a operação”, relata Tramontini.


A Eslováquia foi escolhida como destino, onde um amigo do pai de Victor mora. Chegando no país, o grupo foi recebido por membros da embaixada brasileira.


Atenção aos detalhes para sobreviver


Até mesmo a forma de arrumar as mochilas foi orientada pela estrategista durante o período de evacuação do grupo. Alguns treinamentos foram repassados explicando como agir, o que poderia acontecer e o que seria necessário fazer.


Além do alerta para as tropas russas, ataques de milícias ucranianas eram uma outra preocupação. Os brasileiros corriam riscos a todo tempo, mas estavam sempre em contato por aplicativo de mensagens com o Brasil.


Os jovens estiveram em Kiev durante bombardeios e precisaram ficar na cidade por oito horas. Parte do abastecimento elétrico da capital foi prejudicado, o que impactou a viagem planejada. De acordo com a especialista, esse foi o momento mais perigoso da fuga.


Todos os locais por onde os trens passavam também apresentavam algum grau de perigo. “O trem mudou de rota várias vezes. Provavelmente porque o maquinista estava em contato com algum staff de inteligência e eles rapidamente mudavam a rota para segurança dos passageiros”, relembra Tramontini.


De Florianópolis, a especialista não tinha como pessoalmente resgatá-los, mas conseguiu garantir a segurança dos brasileiros por meio de outros contatos internacionais e com a equipe da embaixada.


Estratégias emocionais


“O que escalona as dificuldades dentro de uma missão é o fator emocional das partes envolvidas, inclusive a família, os meninos e atores envolvidos”, garante a negociadora em operações de paz.


Durante as incertezas na Ucrânia, várias estratégias foram aplicadas para manter o equilíbrio psicológico dos jovens e garantir a integridade do grupo.


Falar com a família foi positivo em um momento, deu suporte para eles. Quando a situação mudou, foi necessário centrar a comunicação em uma só figura, em Tramontini, para evitar ansiedade e agitação.


“É muito importante que qualquer estrategista de operação de paz tenha muito preparo nas esferas negocial, de compreensão política e também nas questões psicológicas”, reforça a especialista, que possui um PhD em andamento em Estudos Internacionais de Paz e Conflitos pela Otago University, da Nova Zelândia.


Retorno ao Brasil?


Tramontini ainda não sabe dizer quando os jovens voltam ao Brasil ou para onde vão após a chegada à Eslováquia. Essa decisão será tomada pelos jovens junto às famílias.

Agora, o momento para eles é de aliviar dias de tensão e avaliar quais as próximas estratégias devem seguidas.


Fonte: ND +

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